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CACHAÇA NO VELÓRIO

Adicionada por Amadeu NuvemComo sempre, minhas crônicas são baseadas em fatos reais ou em acontecimentos que me contem, mas, para preservar as pessoas, os nomes serão sempre ocultados ou substituídos.
Há pouco tempo aconteceu algo muito curioso. Estava eu numa lan-house, à noite, jogando um RPG on-line, quando, de repente, um grito estronda. Era muita gente gritando ao mesmo tempo.
Alguns se levantaram e um foi olhar o que era. Eu continuei no PC até que nova gritaria começou.
O cara que ficara na lan resolvera fechar o portão e nisso, o que fora olhar bate desesperadamente. ―Abre, abre! Alguém diz: ―É só levantar! Mas ele não consegue: ―Abre logo, sou eu! ―Cadê atua força, cara? “Onde é que tu bota a comida que os outros comem?” ―Macho, o cara puxou a faca ali, e eu corri ligeiro. ―Mas o que é que tá acontecendo lá? ― Perguntei. ― Ora, uma briga. ― Respondeu um dos usuários pra fazer graça. ―Não, macho, é um enterro. ―Já mataram? ―Arriégua, o cara puxou faca num enterro? ―Tava bem bêbado. ―Tava. ― Respondeu o que voltara de lá. ―Eu vou voltar. ―Vai não, cara. Tu já levou uma carreira de faca, quer levar outra? ―Mas eu vou de novo. ― E saiu. ―O que tem a ver, uma briga num enterro...? ―E ainda mais de faca. ―Ora, a faca é pra cortar o bolo. ―Olha o outro. Que bolo, má? É um enterro não é um casamento não. ―Sim, a gente sabe disso, mas será que o bêbado sabe? Vai ver ele pensava que era uma festa de aniversário e foi cortar uma fatia do bolo pra tirar gosto e pagar a vela. ―Todos nós rimos disso, mas só ficamos sabendo de tudo o que aconteceu um ou dois dias depois.
Foi mais ou menos assim, juntando as informações.
O defunto morrera na capital e teve que ser levado para a sua cidade natal, onde estava a sua família. Só chegou o corpo depois das 22 horas, o que acarretou na embriaguez dos parentes, que esperavam o dia inteiro.
O defunto chega finalmente e está sendo arrumado pela decoradora, quando entra uma das amantes dele, que era casado, batendo na cara do falecido e gritando: ― Tome jeito, seu cabra sem-vergonha! Tu é safado até depois de morto! ― E agarra a decoradora pelos cabelos, com ciúme. A mão de tapa começa aí.
Os parentes do morto, da amante e da decoradora se emendam na peia. Não posso precisar o tamanho da algazarra, mas posso garantir que durou algumas horas. E a gritaria foi muito grande. Deu pra se ouvir de muito longe.
O dono da lan estava numa pizzaria próxima à esquina, quando entra de repente um dos homens que estavam no enterro correndo, pega uma cadeira e sai.
―Ei, cara, solta a minha cadeira! ―Diz o dono do estabelecimento. O dono da lan adverte:¬―Ei, deixa pra lá, tem um homem lá fora com uma faca pra tacar nele. Se mete nisso não. ―Não tô nem aí, a cadeira é minha. Ei, traz a cadeira de volta!― E saiu em disparada.
O cara da faca subiu novamente para a igreja, perguntando a quem via: ―A polícia tá aí? ―Disseram que não e ele escondeu a faca na escadaria de uma casa próxima à igreja.
No meio da confusão duas pessoas foram jogadas das escadas. Do lado esquerdo da matriz um deles desmaiou e na parte da frente o outro fraturou uma costela, segundo contam.
O carro da funerária saiu de fininho, deu a volta na rua e passou feito um foguete no meio dos briguentos, que correram pensando que era uma viatura da polícia; esta nem apareceu na ora, só tentou levar uma mulher bêbada que se soltou e correu.
O homem da faca teria pulado o muro onde a Cagece faz o tratamento d’água, que por sinal está péssimo nestes dias por lá.
O dono da lan ainda foi ajudar uma senhora que seguia chorando depois do quebra-quebra.
―A senhora tá bem? O que foi que houve que a senhora tá chorando? ―Eu tô chorando, meu filho, mais é de rir. ― Ele não se agüentou e começou a rir também.
ATEU POETA 02/09/2010 1he54min